Após Makanai: Cozinhando para a Casa de Mako (2023), o streaming traz a segunda série do diretor japonês
Em 9 de janeiro a Netflix lançou Asura (阿修羅のごとく), a segunda série de Hirokazu Kore-Eda, vencedor da Palma de Ouro no Festival Cannes por Assunto de Família ( 万引き家族, 2008).
A estreia foi a tempo dos espectadores comemorarem o ano novo comendo o kagami-moti junto com os personagens (já explico).
Baseada no romance Ashura no Gotoku, da escritora e roteirista Kuniko Mukoda, a série se passa na Tóquio de 1979 e conta a história das quatro irmãs Takezawa que se unem para decidir como lidar com uma terrível descoberta: o pai delas, Kôtarô (Jun Kunimura), tem um caso e, possivelmente, um filho fora do casamento.
Mas como chegar a um acordo quando as quatro mulheres possuem personalidades, estilos e visões de vida completamente diferentes?
Takiko (Yû Aoi), que é a terceira filha e quem descobre a traição, é uma bibliotecária solteira constantemente cobrada para arrumar um parceiro; Sakiko (Suzu Hirose) é a caçula, namora o aspirante a pugilista Hide (Kisetsu Fujiwara) e se sente subestimada pelas irmãs.
A mais velha delas é Tsunako (Rie Miyazawa), uma viúva que se dedica ao Ikebana (arranjos florais) e Makiko (Machiko Ono) é uma dona de casa com dois filhos adolescentes (Kairi Jyo e Maru Nouchi).
Todas as personagens são complexas e nada é exatamente como aparenta ser, até mesmo a mãe Fuji (Keiko Matsuzaka) tem seus segredos. O embate entre as irmãs é mostrado com muito humor. Elas brigam, riem, choram e se apoiam enquanto lidam com segredos, desconfianças, rivalidades, cobranças, desejos e afetos.
O que faz os dramas de Kuniko Mukoda tão ricos são as conversas superficialmente venenosas e o amor escondido por trás de palavras cruéis.” Hirokazu Kore-eda
A aproximação das Asuras também rende momentos de muitas lembranças familiares e resgate de tradições, como quando elas dividem o kagami-moti (que eu citei lá em cima) no dia 11 de janeiro. (O kagami-moti é um bolinho de arroz glutinoso que simboliza felicidade e prosperidade. Ele é deixado no altar das casas japonesas como uma oferenda aos deuses na virada do ano. No dia 11 de janeiro, as famílias realizam um ritual dividindo o bolinho.)
A comida, aliás, está presente em muitos momentos afetuosos da história (e outros nem tão afetuosos assim): as maçãs fuji para a mãe, os pedidos sushis, a receita da conserva de repolho e um ramen que pode trazer grandes consequências.
Dividindo essas refeições estão também Katsumata (Ryuhei Matsuda) o detetive contratado por Takiko para investigar o pai; Sadaharu (Seiyo Uchino) o dono do restaurante decorado por Tsunako; e Takao (Masahiro Motoki), o marido de Makiko que, apesar de muito presente e dedicado, não esconde suas opiniões machistas. Todos esses homens, porém, são apenas coadjuvantes nesse drama intenso e feminino.
E se você ficou curioso em saber o que significa Asura, Takao explica ao final: “Asuras são divindades indianas que por fora, personificam a virtude. Mas também são desdenhosas. É melhor tomar cuidado”.
Outras versões
A série de 2025 é a terceira adaptação do romance Ashura no Gotoku.

A primeira versão foi uma série de 7 episódios que foi ao ar na NHK em 1979 e 1980, com roteiro da própria autora do romance, Kuniko Mukoda.
Em 2003, uma versão em longa metragem Like Asura foi dirigida por Yoshimitsu Morita.
A roteirista Tomomi Tsutsui ganhou um Japan Academy Film Prize pelo filme.

A Japan Times fez uma análise das semelhanças e diferenças das três versões.
De acordo com o jornal, a intenção inicial de Kore-Eda era se manter fiel ao roteiro da série original, mas após receber a benção da irmã de Mukoda, ele decidiu tornar a história mais próxima do público contemporâneo.
As mulheres passaram a ter mais autonomia para guiar suas vidas e estão menos dispostas a sofrer em silêncio.
Você pode ler a matéria aqui (texto em inglês).












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